Pesquisas mostram que até 38% das pessoas que bebem em grandes quantidades relatam usar bebidas alcoólicas para aliviar dores físicas. ¹E o fenômeno não é apenas cultural: estudos científicos confirmam que o álcool, de fato, tem algum efeito analgésico. O detalhe crucial, porém, é que esse alívio só aparece em doses elevadas, em torno de 0,08 g/dL de álcool no sangue, o mesmo nível que caracteriza o consumo abusivo episódico (o chamado binge drinking) e que corresponde a quatro ou mais doses de álcool em uma única ocasião para mulheres e cinco para homens, padrão associado a diversas doenças e agravos, como câncer, hipertensão e o próprio alcoolismo.²,³
Acontece que esse efeito analgésico é breve e enganoso. Logo nas primeiras horas após o consumo, instala-se a chamada tolerância aguda: o corpo passa a responder cada vez menos à mesma quantidade de álcool. Pior ainda, à medida que a bebida deixa o organismo, a sensibilidade à dor não volta simplesmente ao normal, ela pode ficar amplificada, em um fenômeno conhecido como hiperalgesia. Em outras palavras, no dia seguinte, ou em momentos de abstinência, a pessoa pode sentir mais dor do que sentiria se nunca tivesse bebido.¹
O álcool oferece um conforto momentâneo da dor, mas deixa a pessoa mais exposta logo em seguida. O cérebro, então, aprende rapidamente que uma "nova dose" pode trazer alívio, criando o impulso para beber de novo, em quantidades cada vez maiores e em intervalos cada vez menores.¹,⁴
Com o tempo, o consumo intenso e prolongado provoca alterações duradouras no sistema nervoso central, deixando o cérebro mais sensível à dor (um processo chamado de sensibilização central) e podendo causar danos diretos aos nervos periféricos, a chamada neuropatia alcoólica. Não é coincidência que pessoas com transtorno por uso de álcool relatam dor crônica em proporções bem maiores (43% a 54%) do que quem bebe pouco ou não bebe (28% a 33%). ¹Aquilo que começou como tentativa de enfrentar a dor torna-se, ele próprio, uma nova fonte de sofrimento e um obstáculo importante para a recuperação, já que níveis mais altos de dor estão associados a maior risco de recaída entre quem busca tratamento.¹
A boa notícia é que existem caminhos eficazes e seguros. Abordagens psicológicas como a terapia cognitivo-comportamental e intervenções baseadas em mindfulness vêm mostrando bons resultados no manejo conjunto da dor e do consumo de álcool.1 Alguns medicamentos já utilizados no tratamento do transtorno por uso de álcool, como naltrexona, topiramato e gabapentina, também apresentam efeitos sobre a dor crônica e podem ser opções valiosas quando indicados por um profissional de saúde. Reconhecer que o álcool não é um remédio para a dor e procurar avaliação médica adequada para tratar o problema é o primeiro passo para escapar desse ciclo.
Referências
1. De Aquino, J. P., Sloan, M. E., Nunes, J. C., Costa, G. P. A., Katz, J. L., de Oliveira, D., Ra, J., Tang, V. M., & Petrakis, I. L. (2024). Alcohol Use Disorder and Chronic Pain: An Overlooked Epidemic. The American Journal of Psychiatry, 181(5), 391–402. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.20230886
2. Thompson, T., Oram, C., Correll, C. U., Tsermentseli, S., & Stubbs, B. (2017). Analgesic Effects of Alcohol: A Systematic Review and Meta-Analysis of Controlled Experimental Studies in Healthy Participants. The Journal of Pain, 18(5), 499–510. https://doi.org/10.1016/j.jpain.2016.11.009
3. Cucinello-Ragland, J. A., & Edwards, S. (2023). The hidden risks of alcohol use for pain relief. Alcohol, clinical & experimental research, 47(2), 209–210. https://doi.org/10.1111/acer.15005
4. Edwards, S., Vendruscolo, L. F., Gilpin, N. W., Wojnar, M., & Witkiewitz, K. (2020). Alcohol and pain: A translational review of preclinical and clinical findings to inform future treatment strategies. Alcoholism: Clinical and Experimental Research, 44(2), 368–383. https://doi.org/10.1111/acer.14260