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Consumo abusivo de álcool aumenta no Brasil

Enquanto nos Estados Unidos o consumo frequente de álcool recua, o Brasil segue outro caminho, e ele preocupa. O país acompanha a tendência mundial de queda no consumo per capita de bebidas alcoólicas, mas o consumo abusivo continua subindo. Segundo o sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, a prevalência de Beber Pesado Episódico (BPE), quatro ou mais doses em uma ocasião para mulheres e cinco ou mais para homens, subiu de 15,7% em 2006 para 20,4% em 2024 nas capitais brasileiras.

O crescimento não é uniforme. Entre os homens, o consumo abusivo ficou alto e relativamente estável, em torno de 25% a 27%. A maior mudança veio das mulheres: a prevalência quase dobrou em duas décadas, de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023, com peso especial entre as mais jovens. O aumento se concentra também nas faixas etárias jovens e entre pessoas de maior escolaridade. Ou seja, o problema não está restrito a grupos específicos ou socialmente mais vulneráveis.

Por que essa diferença importa

A visão dos dois cenários ajuda a evitar comparações indevidas. A ideia de que “uma nova geração bebe menos”, embora amparada por dados de pesquisas recentes no Brasil,  deve ser tratada com cautela. Aqui,  o álcool ainda é a substância psicoativa que mais causa danos, ligada a doenças crônicas, acidentes de trânsito, violência e mortes evitáveis. E o uso abusivo, que é o padrão mais preocupante, cresce entre alguns grupos populacionais, apesar da queda do consumo geral. 

O contexto regulatório e cultural também difere. Nos Estados Unidos, a expansão da cannabis ocorre em meio à legalização e a um debate intenso sobre danos comparativos. No Brasil, o álcool faz parte da sociabilidade e das festas, e é cercado de baixa percepção de risco. Esse enraizamento cultural ajuda a entender por que o consumo abusivo resiste, e cresce, mesmo com a queda no volume médio consumido.

O que fazer com essas informações

O primeiro passo é não tratar o álcool como um problema “em retração”. Os dados brasileiros mostram o contrário e pedem atenção constante. Monitorar o padrão de consumo, e não só a quantidade média, faz diferença: o Beber Pesado Episódico concentra boa parte dos danos agudos, mesmo entre quem não bebe todos os dias.

Também é preciso olhar para públicos pouco visados pelas campanhas, como mulheres e adultos de maior escolaridade, entre os quais o consumo abusivo vem subindo. As mensagens de prevenção têm de alcançar esses grupos sem reforçar estigmas que afastam as pessoas do cuidado.

Por fim, os achados internacionais sobre cannabis e álcool merecem leitura cuidadosa. Eles apontam mecanismos relevantes e devem ser acompanhados pela ciência, mas não autorizam soluções simplistas. No Brasil, a prioridade continua a mesma: enfrentar o consumo abusivo de álcool com políticas baseadas em evidências, já que é essa a substância que mais pesa sobre a saúde da população.

Em síntese:

• Nos Estados Unidos, o uso diário ou quase diário de maconha superou, pela primeira vez, o de álcool (17,7 milhões contra 14,7 milhões em 2022), em meio a um recuo do consumo frequente de bebidas;

• Um ensaio clínico recente sugere que a cannabis pode reduzir o consumo de álcool no curtíssimo prazo, mas os autores alertam que isso não a torna um tratamento seguro nem uma substituição isenta de riscos;

• No Brasil, o consumo abusivo de álcool (Beber Pesado Episódico) seguiu em alta, passando de 15,7% (2006) para 20,4% (2024), com crescimento expressivo entre mulheres e jovens;

• O álcool permanece a substância psicoativa que mais adoece e mata no país, por isso, as políticas de prevenção precisam focar no padrão de consumo, alcançar novos públicos e basear-se em evidências, sem soluções simplistas de substituição entre substâncias.

Fonte: Cisa