sem dependência química

BLOG

Podcast debate o impacto do vício em jogos na sociedade

O podcast Sem Dependência dedica seu 15º episódio a um dos temas mais atuais relacionados às dependências: o crescimento das apostas esportivas no Brasil e os impactos desse mercado na saúde mental, na economia das famílias e na sociedade. Ao longo da conversa, os participantes analisam como a publicidade massiva, a facilidade de acesso às plataformas e a falsa sensação de ganho contribuem para o aumento da compulsão pelos jogos, especialmente entre os jovens, além dos reflexos econômicos provocados pelo avanço das bets.

Durante o debate, também foram discutidos o papel da indústria das apostas, a influência do marketing esportivo, a ausência de políticas públicas mais efetivas e os desafios para conscientizar a população sobre os riscos desse tipo de dependência. Os convidados chamam atenção para o impacto do endividamento na saúde e para os prejuízos econômicos causados pelo alto volume de recursos destinados às apostas. Para o advogado Paulo Leme Filho, o tema ocupa espaço no debate econômico, desviando recursos que poderiam ser utilizados para o bem-estar da população.

"Ninguém fala sobre isso mais nos cadernos de saúde e equilíbrio. As pessoas falam sobre isso no caderno de economia. Há um estudo recente que diz que é drenado para esse mercado algo em torno de 110 bilhões de reais por ano. Então, isso desajusta qualquer economia, quando você tem 110 bilhões de reais direcionados para a aposta, dinheiro que poderia ser usado para aquisição de produtos, para contratação de serviços, para o bem-estar da população", afirma o advogado.

Publicidade e a ilusão do ganho fácil

Os participantes destacam que as plataformas de apostas utilizam mecanismos semelhantes aos de outros jogos de azar, estimulando o usuário a continuar apostando mesmo após sucessivas perdas. Para o jornalista Fábio Piperno, a popularização das bets, impulsionada pela intensa publicidade, tem levado cada vez mais jovens a apostar e transformado essa prática em um hábito cada vez mais comum.

"Eu trabalhava em um canal esportivo e, de uma hora para outra, aquilo virou um cassino. Todo mundo jogava, principalmente os mais jovens. Foi aí que comecei a perceber que as apostas já não eram apenas sobre o resultado do jogo, mas também sobre número de escanteios, cartões amarelos e chutes a gol, e isso ajuda a entender como surgem as manipulações: já não é preciso subornar alguém para alterar o placar, basta influenciar um lance pequeno da partida que passa despercebido", conclui o jornalista.

Piperno afirma que esse cenário favorece o desenvolvimento da compulsão, sobretudo entre os jovens, que passam a apostar com frequência e comprometem boa parte da renda. "Vi muitos estagiários começarem a apostar em 2018. Alguns ganhavam um dia, mas, no seguinte, perdiam tudo. No fim do mês, já não tinham dinheiro e acabavam recorrendo a empréstimos ou pedindo ajuda à família. Aquela primeira geração que acompanhei, quase toda se tornou jogadora, e hoje há jogos praticamente todos os dias, alimentando esse ciclo".

Paulo Leme Filho reforça que o funcionamento das apostas explora mecanismos psicológicos capazes de comprometer rapidamente o orçamento das famílias e gerar consequências sociais graves.

"Isso aqui derruba um governo, porque o camarada perde muito rápido esse dinheiro. É algo que impacta o orçamento familiar. Então, a gente está falando de uma coisa muito, mas muito, muito séria", alertou o advogado.

Paulo também alerta para o crescimento dos atendimentos relacionados às consequências financeiras das apostas. "Assistentes sociais e psicólogos que trabalham em hospitais do SUS relatam um número crescente de pessoas que dão entrada no pronto-socorro por conta de tentativa de suicídio por endividamento em bets, em apostas. Então, nós estamos falando de uma coisa de extrema gravidade", completa.

Dependência comportamental

Ao longo do episódio, os convidados explicam que a compulsão por apostas ativa mecanismos cerebrais semelhantes aos observados em outras dependências. Paulo Leme Filho destaca que esse fenômeno também pode ser observado em outros comportamentos compulsivos, como o uso excessivo das redes sociais.

"Hoje não é apenas o jogo, também vemos isso no vício em telas. As plataformas são construídas para prender a atenção das pessoas, principalmente dos mais jovens".

Miguel Tortorelli alerta que os grupos de apoio e as comunidades terapêuticas já registram um crescimento significativo de pessoas em busca de tratamento devido às apostas.

"Hoje os grupos do Amor-Exigente já estão recebendo pessoas que querem sair do vício dos jogos. Tem muita gente já internada nas comunidades terapêuticas por causa das apostas".

Informação e prevenção como principais ferramentas

Os debatedores defendem que o combate à dependência em apostas passa, antes de tudo, pela informação. Para Piperno, a sociedade precisa discutir o tema de forma direta, sem minimizar seus impactos.

"Não se deve proibir. Se o cidadão quiser se jogar para o fundo do poço, eu vou tentar segurar, mas o desejo é dele. O que a gente pode fazer é dar todas as informações. Tem que falar abertamente", afirma.

Ao final do episódio, os participantes reforçam que ampliar o debate sobre as apostas esportivas é fundamental para reduzir os danos sociais provocados pela expansão desse mercado, principalmente entre jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Sobre o podcast

O Sem Dependência é uma iniciativa que busca ampliar o debate sobre a dependência química, tema que afeta diretamente cerca de 10% da população brasileira. Em episódios quinzenais, o programa traz discussões sobre temas atuais, com base em dados, experiências e análises. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 30 milhões de brasileiros têm algum familiar dependente químico.

Mediado pelo jornalista Hugo Pereira, o podcast conta com a participação do advogado e escritor Paulo Leme Filho, do coordenador nacional da ONG Amor-Exigente, Miguel Tortorelli e do jornalista Fábio Piperno.