Retrocesso no combate ao fumo acende alerta no Brasil
O Brasil foi, durante décadas, referência mundial no combate ao tabagismo. Entre 1989 e 2020, o país reduziu em 74% a prevalência de fumantes, um dos resultados mais expressivos já registrados globalmente em políticas de saúde pública. Agora, porém, esse avanço histórico começa a perder força. Após anos de queda contínua, os índices nacionais deixaram de cair e apresentaram oscilação para cima, entre 2023 e 2025. O sinal de retrocesso é um alerta que se reforça no Dia Nacional de Combate ao Fumo ( Lei nº 7.488/1986).
O cigarro continua sendo o terceiro principal fator de risco para mortes globais, responsável por mais de sete milhões de óbitos por ano, atrás apenas da hipertensão arterial e da poluição do ar. “O Brasil precisa encarar uma realidade incômoda: as estratégias que fizeram do país um modelo internacional perderam intensidade justamente quando a indústria da nicotina reorganiza sua ofensiva, impulsionada pelos cigarros eletrônicos e dispositivos aquecidos”, avalia Ubiratan de Paula Santos, pneumologista do InCor-HCFMUSP.
Há alguns meses, o Reino Unido aprovou uma legislação que proíbe a venda de produtos de tabaco e vapes para pessoas nascidas a partir de 2009. “Do ponto de vista da saúde pública e da pneumologia, trata-se de uma estratégia com potencial relevante para reduzir a iniciação ao tabagismo e, consequentemente, a carga de doenças respiratórias e cardiovasculares nas próximas décadas”, destaca Ramiro Dourado, pneumologista e membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).
A medida foi tomada após a flexibilização das proibições, anos atras, resultarem em evidências de aumento de doenças provocadas pelo tabaco. O National Health Service (NHS) britânico, que chegou a recomendar vapes como como ferramenta de cessação do tabagismo, hoje registra o crescimento acelerado do consumo de vapes e do chamado “uso dual”, quando o indivíduo mantém simultaneamente o cigarro convencional e o eletrônico, elevando novamente a prevalência total
“O caso britânico demonstra que a substituição da nicotina por novas formas de consumo não elimina a dependência, apenas amplia mercados e prolonga o ciclo de usuários”, analisa Ubiratan de Paula Santos.
Cigarros eletrônicos são proibidos no Brasil
No Brasil, apesar da proibição determinada pela Anvisa, os cigarros eletrônicos são comercializados livremente em plataformas digitais, aplicativos de entrega e pontos físicos, muitas vezes sem qualquer tipo de fiscalização. O impacto dessa expansão já aparece nas estatísticas: a tendência histórica de redução do tabagismo, sustentada desde os anos 1990, perdeu força.
No Brasil, o terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), publicado em outubro de 2025, apontou que cerca de 8,7% dos adolescentes entre 14 e 17 anos já usaram dispositivos eletrônicos para fumar. Além disso, 86,3% afirmavam ter facilidade para conseguir os dispositivos — mesmo com a venda proibida.
“Para reduzir a prevalência de fumantes a menos de 5% até 2050, é indispensável retomar políticas rigorosas de fiscalização e controle. Isso inclui bloquear efetivamente o comércio ilegal de cigarros eletrônicos e produtos aquecidos, responsabilizando plataformas digitais, aplicativos de entrega e estabelecimentos que comercializam esses dispositivos”, sugere de Paula Santos.
“Para reduzir a prevalência de fumantes a menos de 5% até 2050, é indispensável retomar políticas rigorosas de fiscalização e controle. Isso inclui bloquear efetivamente o comércio ilegal de cigarros eletrônicos e produtos aquecidos, responsabilizando plataformas digitais, aplicativos de entrega e estabelecimentos que comercializam esses dispositivos”, sugere de Paula Santos.
Ele também cita que é urgente combater a venda de cigarros avulsos em bares, padarias e pequenos comércios, prática que facilita o acesso de crianças e adolescentes ao tabaco, e ampliar o enfrentamento ao contrabando nas fronteiras e no litoral, impedindo a entrada de cigarros ilegais vendidos a preços extremamente baixos.
A retomada do controle do tabagismo também exige campanhas educativas permanentes, integradas às escolas, universidades e serviços de saúde, além do fortalecimento da assistência oferecida pelo SUS aos fumantes que desejam abandonar a dependência.
“Os dados são inequívocos: tratar o tabagismo custa apenas uma fração do que o sistema público de saúde gasta com câncer, infartos, AVCs e doenças respiratórias relacionadas ao cigarro”, alerta o médico do InCor.