Em muitas mochilas escolares, o vape já não se destaca, ele se camufla. Pode parecer um acessório eletrônico qualquer ou um objeto de uso cotidiano, como uma caneta marca-texto, algo que não levanta suspeitas à primeira vista. Essa estratégia de design, cada vez mais comum, transforma o dispositivo em algo discreto e socialmente aceitável — ao menos na aparência.
“Esse disfarce pode ocultar a percepção de perigo para o jovem, que sente que está usando um acessório legal, e para os pais, que acham que é apenas um artigo tecnológico”, afirma a pneumologista Maria Cecília Maiorano, doutora pela Universidade de São Paulo (USP).
A cena, que poderia passar por banal, sintetiza uma mudança silenciosa e acelerada no padrão de consumo de nicotina entre adolescentes: transformação que ocorre apesar de uma barreira formal que, em teoria, deveria contê-la.
No Brasil, fabricação, comercialização e importação de dispositivos eletrônicos para fumar são proibidas desde 2009, regra reafirmada após extensa revisão regulatória conduzida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2024. Ainda assim, o fenômeno avança.
Da experimentação à dependência
Os números mostram que não se trata apenas de curiosidade juvenil. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, indicam que 29,6% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico, percentual muito superior ao observado em 2019, quando a prevalência era de 16,8%.
Já o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) mostrou que, entre adolescentes de 14 a 17 anos, 8,7% relataram uso de dispositivos eletrônicos para fumar no último ano, enquanto o tabagismo convencional nessa faixa etária ficou em 1,7%. O levantamento também descreve uma taxa de conversão para uso regular de 76,3% entre adolescentes usuários de DEFs.
Para a psicóloga Clarice Sandi Madruga, doutora e pós-doutora em psiquiatria e psicologia médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com colaboração do King’s College London, esse dado altera completamente a interpretação do fenômeno. “O que vemos não é uma experimentação ocasional. Existe uma conversão muito rápida para o uso regular, em uma fase da vida em que o cérebro ainda está em desenvolvimento”, afirma.
A exposição precoce à nicotina, acrescenta a especialista, não apenas aumenta o risco de dependência, mas interfere diretamente nos circuitos cerebrais ligados ao humor e ao controle de impulsos. “Ela pode predispor a transtornos depressivos e de ansiedade e afetar a capacidade de regulação emocional ao longo da vida”, explica.
A pneumologista e pesquisadora Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, insere esse movimento em um contexto mais amplo e mais preocupante: “Pela primeira vez, depois de mais de 30 anos de redução consistente do tabagismo no Brasil, estamos observando um aumento real do número de fumantes, e basicamente entre jovens e até crianças”.
A combinação entre crescimento do uso e mudança de perfil sinaliza uma possível reversão de décadas de políticas públicas bem-sucedidas no controle do tabagismo. Mas a percepção de baixo risco não se restringe aos adolescentes.
Especialistas apontam que os sabores e aromatizantes desempenham papel central nesse processo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), essas substâncias ajudam a mascarar a aspereza natural da nicotina e tornam os produtos mais palatáveis, especialmente para adolescentes e jovens. Dados divulgados recentemente pelo instituto também mostraram crescimento expressivo no registro de produtos com sabores destinados ao uso em narguilés, com aumento próximo de 700% em seis anos.
“Há situações em que o vape entra em casa como um presente”, relata Clarice. “Já atendemos casos em que a própria mãe trouxe o dispositivo do exterior para a filha, sem reconhecer que se trata de um produto com alto potencial de gerar dependência.”
Para Neilane Bertoni, doutora em epidemiologia em saúde pública e tecnologista do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a preocupação vai além da prevalência. “O foco deve incluir o número total de pessoas dependentes de nicotina, independentemente do dispositivo utilizado, já que a substância sustenta a dependência e mantém o indivíduo exposto a diferentes produtos e seus riscos”.
Proibição, mercado e disputa
A expansão do consumo ocorre em um cenário paradoxal. Embora proibidos, os dispositivos permanecem amplamente disponíveis. Dados do LENAD III indicam que 86,1% dos usuários de dispositivos eletrônicos para fumar no último ano relatam acesso fácil ou muito fácil aos produtos, evidenciando fragilidades na fiscalização. Entre adolescentes usuários, 80,7% relataram acesso fácil ou muito fácil aos dispositivos.
O debate regulatório ganhou novos elementos neste ano com a divulgação de um estudo publicado no periódico Tobacco Control e apresentado pelo INCA. A pesquisa contestou um dos principais argumentos utilizados pela indústria do tabaco contra a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que proíbe aditivos de sabor e aroma em produtos derivados do tabaco.
Com base em dados da própria Anvisa, os pesquisadores mostraram que cerca de metade das marcas de cigarros manufaturados registradas no Brasil em 2025 já não continha os aditivos vetados pela RDC nº 14/2012, contrariando a alegação de que a medida inviabilizaria a produção nacional. O estudo também identificou expansão do uso de aromatizantes em produtos tradicionalmente sem aditivos, como cigarros de palha, sugerindo ampliação das estratégias para aumentar a atratividade dos produtos.
“O dado mostra que a indústria é plenamente capaz de desenvolver produtos sem esses aditivos”, afirmou o pesquisador do INCA André Szklo, um dos autores do estudo.
Segundo a Dra. Margareth, essa realidade não pode ser dissociada da atuação da indústria do tabaco. “Nós lutamos contra forças muito poderosas, que não têm nenhum compromisso ético e atuam exclusivamente para gerar lucro”, afirma. Ela descreve o cenário como um “cabo de guerra”, no qual estratégias de marketing, influência política e pressão econômica se contrapõem às evidências científicas.
Essa disputa já chegou ao campo institucional. Em fevereiro, uma ação civil pública passou a questionar a proibição dos dispositivos no Brasil, propondo sua regulamentação. Esse movimento, segundo especialistas e entidades de saúde, reproduz argumentos historicamente associados à indústria do tabaco e ignora o acúmulo de evidências científicas sobre os riscos desses produtos.
Para a Dra. Margareth, o debate econômico que sustenta essas propostas é ilusório. “Dizer que haverá ganho com impostos é um absurdo. A conta não fecha. Você arrecada de um lado e gasta dezenas de vezes mais tratando doenças provocadas por esses produtos”, afirma.
Além disso, ela chama a atenção para o caráter estrutural do problema. “A venda é ilegal, mas ocorre de forma disseminada, principalmente pela internet, com entrega domiciliar. É uma luta desigual”, diz.