Diz um ditado popular: em briga de comadres, é que se conhece a verdade. Nada tão verdadeiro para conhecer a verdade.
A indústria das bets encomendou pesquisa, segundo a qual, no Brasil, gasta-se menos com apostas do que com o consumo de álcool. Seriam R$ 37 bi por ano (apostas) contra R$ 40,5 bi (álcool)¹.
Isso, no dizer da pesquisa, significaria que as apostas custam apenas 0,46% do orçamento das familias.
Bem, uma comadre, no meio da briga, pode falar a verdade da amiga – mas jamais de si mesma.
0,46% é a média do gasto – mas minha velha tia Marocas, cujo único pecado é mandar mensagens de bom-dia, boa-tarde e boa-noite em todos os grupos de Whatsapp de que participa, nunca gastou um centavo apostando em jogos da terceira divisão do futebol jamaicano. O mesmo, infelizmente, não se pode dizer de quem, acreditando em sua suposta capacidade, tomou dinheiro emprestado para dar a tacada final – e, perdendo tudo, pensa em tirar a própria vida.
Não é muito diferente com o álcool – pois minha tia Marocas nunca colocou um gole dessas coisas na boca.
No final, a verdade permanece a mesma de sempre: uma comadre diz que a outra é mais suja do que ela – mas ninguém se lembra de limpar a própria sujeira, ressarcindo a sociedade do estrago decorrente de suas tacadas.
Folha de S. Paulo, edição de 18.04.26, matéria intitulada “Gasto com apostas é o mesmo que com álcool, diz estudo patrocinado por bets”.